5 de jan. de 2026

Perdido no Deserto


Perdido no deserto, tendo como únicas companhias o calor abrasador, a sede implacável e a incerteza do destino, sustentava-se pela esperança que lhe dava forças para seguir e enfrentar a travessia. Ao meio-dia, o solo fervia tanto que ondas de calor dançavam sobre a terra, tremendo como miragens. Os pés ardendo na areia escaldante faziam-no acreditar que caminhava pelo próprio caminho do inferno.

Quando o dia enfim se despediu, a noite trouxe consigo uma brisa suave que apagava os rastros deixados na jornada. Exausto, encontrou uma árvore esquelética e repousou sob seus galhos secos, que pareciam espectros esquecidos pelo tempo.

A fome e o cansaço tornaram-se seu sonífero, e ele adormeceu. Na madrugada, despertou e, ao erguer os olhos, viu um brilho acima da cabeça. Levantou-se lentamente para descobrir o que era e, para sua surpresa, uma gota de orvalho escorria serena. Sorveu-a como se fosse a última dádiva da vida. Animado, deixou-se levar pela fome e mordeu o galho umedecido, que, por instantes, lhe serviu de alimento.

Naquele instante, sentiu a certeza de que o universo não o abandonaria. Elevou uma prece de gratidão pela gota de orvalho e pelo galho úmido dádivas simples, mas vitais para quem não tinha alternativas. Permaneceu desperto, contemplando a vastidão de estrelas que se espalhavam pelo céu, e deixou-se levar pelo pensamento de como seria o amanhecer. Imaginava que, quando o sol voltasse a nascer, e a noite retornasse mais uma vez, teria novamente a mesma sorte.

O sol nasceu rasgando uma nuvem avermelhada, como uma cortina que se abria lentamente diante do horizonte. Em poucos minutos, o calor já se intensificava, repetindo as cenas áridas do dia anterior. O desafio, porém, parecia ainda maior: a areia ardia tanto que até os répteis do deserto, incapazes de correr, saltavam desesperados em busca de refúgio para não queimarem as patas.

E como se o calor não bastasse, um redemoinho surgiu repentinamente, varrendo o chão com violência. A areia levantada pelo vento atingia seu rosto, queimando como pequenas faíscas que ardiam contra a pele.

Arrastado pela fúria do vento, foi lançado para longe, ficando com parte do corpo soterrada pela areia. Sem forças e tomado pelo desespero, acreditou ter chegado ao fim. Fechou os olhos e entregou seu espírito ao universo.

Então, uma nuvem cobriu o sol, suavizando o calor, e uma sombra se projetou ao seu lado. Com a visão turva e o corpo exausto, mal conseguia abrir os olhos, mas sentiu uma mão pousar um pano úmido e frio sobre seu rosto.

Uma voz serena sussurrou: — Será que essa travessia no deserto foi suficiente para você enxergar a vida de outra forma? Muitas vezes, as pessoas têm tanto que não sabem valorizar, e permanecem cegas diante daqueles que quase nada possuem.

Eu sou um anjo peregrino, e caminho entre os homens conduzindo-os por desertos distintos. Jamais me cansarei de ajudar, pois acompanho a jornada espiritual de cada ser humano. Alguns desertos serão longos, sob o sol escaldante; outros, noites frias sem cobertores. Mas nada disso é castigo são lições necessárias para a vida.

Com as asas, envolveu o viajante perdido e o ergueu, levando-o até um lago onde havia água cristalina e alimento em abundância. Antes de partir, deixou-lhe um último conselho: — Aprenda com cada deserto, pois é nele que se revela a essência da existência.


"O conhecimento é um farol na escuridão"






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