A bruxa Filomena não se parecia em nada com suas colegas. Guardava em si uma centelha rara de bondade, sempre voltada para os mais frágeis e esquecidos. Mas havia nela um traço curioso: uma sensibilidade exagerada, aquilo que os humanos chamam de “ coração amanteigado ”. Numa noite de chuva intensa, enquanto voava sobre os campos para levar remédios a um vilarejo, Filomena avistou uma cena que a tocou profundamente. Uma velhinha, encolhida sob o vento frio, lutava para acender o fogo em seu fogão a lenha . Por mais que tentasse, a madeira encharcada não se deixava consumir pelas chamas. Filomena pousou suavemente diante da casa e recostou-se na porta, escutando o murmúrio da velhinha: — A noite é longa e a fome aperta... mas milagres acontecem, e eu ainda hei de preparar minha janta. Comovida, a bruxa chamou: — Ô de casa! A senhora veio atender, surpresa com a visita inesperada. Sem hesitar, Filomena olhou para vassoura , partiu-a em pedaços, misturou as palhas e, com um sopro m...
Como reconstruir a vida sem perder origens e conceitos é um desafio que exige coragem. Cada pessoa precisa enfrentar o ato de derrubar seus próprios muros, barreiras que muitas vezes não representam segurança real, mas apenas uma cortina frágil e transparente, que expõe nossas vulnerabilidades mais íntimas . Eu estou no processo de quebrar os muros que ergui em tempos de uma segurança artificial , arquitetada apenas para sustentar ilusões. Esses muros não protegiam; ao contrário, serviam para distorcer a razão e perpetuar propósitos preconceituosos , afastados da lógica e da verdade. Reconstruir é, portanto, um ato de libertação : abrir espaço para que a vida se expanda sem as amarras de estruturas frágeis e sem sentido, permitindo que a essência permaneça, mas livre de distorções. É fundamental reconhecer e definir o grau de obsolescência que carregamos diante das mudanças urgentes em nossas vidas. Só assim conseguimos perceber o quanto precisamos nos reinventar, sem perder a essê...