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A Trindade

  A Trindade havia combinado um encontro numa taverna erguida sobre a falésia da curva, alta, esculpida ao longo de milhões de anos, um cenário perfeito para acolher o possível e o imaginário. O Presente chegou primeiro. O taverneiro passou uma toalha sobre a bancada de pedra polida e perguntou: — Uma bebida? — Sim. — E o que vai ser? — Um energético . Logo a porta de vai‑vem rangeu novamente. Por ela entrou o Passado . Cumprimentou o Presente, lançou um olhar ao Tempo , o proprietário da taverna, e pediu: — Uma taça cheia de solidão . Que seja das grandes. O Presente cumprimentou o recém-chegado e comentou: — E ele, atrasou por quê? Antes mesmo que o Passado pudesse responder, o Tempo acenou em direção a uma mesa no fundo da taverna. — Seria o Futuro? murmurou. Está sempre adiante, nunca se atrasa. Eles voltaram o olhar para o Tempo, e um deles comentou: — Você parece mais complicado do que nós três juntos. Veja o que fez com a falésia. O Tempo, sereno, respondeu: — Não fiz soz...
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Sertões e Mares

Sertões e mares, templos sagrados dos deuses e berçários de vidas, impossível decidir qual deles guarda mais encantamentos. Em cada solo rachado repousa a marca de um sertanejo , símbolo único de resistência e esperança. Do outro lado, a areia salgada mistura-se ao suor dos pescadores e velejadores, que enfrentam o sal e o vento forte em seus rostos. Nos sertões, reinam Oxóssi , sacis e iaras ; nos mares, Poseidon , sereias e Iansã . Entre todos, desvelam-se segredos milenares, mundos míticos e místicos que alimentam corpo e espírito, como se cada elemento fosse parte de uma mesma sinfonia ancestral. Em meio a essa fascinante dualidade repousam segredos ainda ocultos à humanidade. Das matas exuberantes ao espelho azul dos mares , vive a história daqueles que existiram e se foram, deixando páginas de vida inscritas na memória do tempo. Nos redemoinhos dos terreiros e nas tempestades marítimas , tudo se revela como encantamento. Do canto do galo que anuncia a madrugada ao som...

A Vidente

A vidente preparou o espaço com cuidado: estendeu sobre a mesa uma toalha de linho branco, acendeu o incensário que espalhou perfume suave pelo ambiente e, após algumas preces silenciosas, colocou-se em prontidão para receber o primeiro cliente do dia. Um homem entrou decidido e foi direto ao ponto: — Qual o preço para ver o meu futuro ? Ela o convidou a sentar-se e sugeriu que falasse um pouco sobre si. — Quero ver meu futuro, não me interessa passado nem presente, respondeu com firmeza. A vidente então fixou os olhos nos dele e disse: — Que futuro você procura, se passou a vida inteira enganando a si mesmo? Quando alguém esquece de si em favor dos outros, isso não é bondade, é tolice. É preciso primeiro aprender a se amar, reconhecer as próprias prioridades, lutar pela felicidade e escapar das armadilhas que a vida coloca no caminho. — Senhora, e onde o destino entra nessa história? perguntou o homem. Não podemos escapar dele. Damos uma volta de cento e oitenta graus e, no fim, par...

A Décima Rena

  A décima rena continua sendo um mistério para muitos. Nos contos sobre a criação mágica do Natal , sempre há segredos escondidos, e é justamente isso que torna a magia tão especial. Quando Papai Noel terminou de construir o trenó, sabia que precisaria de nove renas para puxá-lo. Então, partiu até uma floresta encantada, onde escolheu cuidadosamente cada uma delas. Rodolfo , com seu famoso nariz vermelho , foi designado como líder, capaz de iluminar os caminhos nas noites escuras e tempestuosas. Enquanto Noel conduzia as renas escolhidas até o trenó, uma pequena e frágil rena surgiu no meio da trilha. Com coragem, ofereceu-se para participar do grupo. Mas Noel, firme em sua missão, respondeu: “Preciso apenas dos mais fortes. Minha jornada não pode permitir fracassos.” Assim, a pequena rena ficou para trás, envolta em mistério. Talvez seja ela a décima rena, aquela que poucos conhecem, mas que guarda em si a essência dos segredos da criação natalina. A décima rena tentou expli...

A Poeira do Tempo

  A poeira do tempo envolve a todos, e muitos se perdem em seus próprios desertos. Caminhar pelo deserto exige mais do que força: exige fé, essa fé tão questionada. O anjo que atravessou as águas tinha poder e proteção, mas ainda assim precisou sentir no rosto o ardor da areia escaldante. Ao contrário da poeira do deserto, que cega e queima, a poeira do tempo é discreta, envolvente e silenciosa. Em certas fases da vida, acreditamos na doce ilusão de cavalgar um cavalo alado, sem perceber que, por felicidade, seguimos montados em um simples pangaré. E mesmo que tenham trocado nossa montaria, a jornada se torna mais leve, e o cansaço, menor. Houve um tempo em que eu não compreendia os limites, e quase nada me preocupava. Naquele período, eu sequer sentia o peso que carregava, pois alguém suportava a carga mais pesada por mim. Mas a vida sempre reserva surpresas: há instantes de lago sereno e, logo depois, de correntezas impetuosas . Essas águas não surgem para nos destruir, mas par...

A Bruxa Filomena

  A bruxa Filomena não se parecia em nada com suas colegas. Guardava em si uma centelha rara de bondade, sempre voltada para os mais frágeis e esquecidos. Mas havia nela um traço curioso: uma sensibilidade exagerada, aquilo que os humanos chamam de “ coração amanteigado ”. Numa noite de chuva intensa, enquanto voava sobre os campos para levar remédios a um vilarejo, Filomena avistou uma cena que a tocou profundamente. Uma velhinha, encolhida sob o vento frio, lutava para acender o fogo em seu fogão a lenha . Por mais que tentasse, a madeira encharcada não se deixava consumir pelas chamas. Filomena pousou suavemente diante da casa e recostou-se na porta, escutando o murmúrio da velhinha: — A noite é longa e a fome aperta... mas milagres acontecem, e eu ainda hei de preparar minha janta. Comovida, a bruxa chamou: — Ô de casa! A senhora veio atender, surpresa com a visita inesperada. Sem hesitar, Filomena olhou para vassoura , partiu-a em pedaços, misturou as palhas e, com um sopro m...

Como Reconstruir a Vida

Como reconstruir a vida sem perder origens e conceitos é um desafio que exige coragem. Cada pessoa precisa enfrentar o ato de derrubar seus próprios muros, barreiras que muitas vezes não representam segurança real, mas apenas uma cortina frágil e transparente, que expõe nossas vulnerabilidades mais íntimas . Eu estou no processo de quebrar os muros que ergui em tempos de uma segurança artificial , arquitetada apenas para sustentar ilusões. Esses muros não protegiam; ao contrário, serviam para distorcer a razão e perpetuar propósitos preconceituosos , afastados da lógica e da verdade. Reconstruir é, portanto, um ato de libertação : abrir espaço para que a vida se expanda sem as amarras de estruturas frágeis e sem sentido, permitindo que a essência permaneça, mas livre de distorções. É fundamental reconhecer e definir o grau de obsolescência que carregamos diante das mudanças urgentes em nossas vidas. Só assim conseguimos perceber o quanto precisamos nos reinventar, sem perder a essê...