O mal que balança o berço não se comove com lágrimas, súplicas ou gritos abafados pela noite. Ele não escuta o choro das crianças nem os lamentos dos desesperados. Tudo o que deseja é a certeza de que, em algum lugar, alguém está sofrendo. Esse singelo indício de dor já basta para abrir em seu rosto pálido um sorriso silencioso e perturbador. Em uma Terra devastada pela corrupção, pelo medo e pela incerteza, a esperança tornou-se uma afronta. Cada palavra de conforto, cada gesto de bondade, cada centelha de fé que insiste em sobreviver nas trevas é vista como uma ameaça. Pois o mal que balança o berço não teme exércitos, reis ou monstros. Ele teme apenas aqueles que se recusam a se ajoelhar diante do desespero. E, por isso, qualquer um que espalhe esperança torna-se um inimigo em potencial, marcado pelos olhos invisíveis daquilo que espreita nos cantos escuros do mundo, aguardando o momento certo para esmagar a última luz que ainda insiste em brilhar. A verdade é que vivemos tempos so...
O General Funheco era o grande responsável pela segurança de um povoado tão tranquilo, mas tão tranquilo, que as grades da prisão eram feitas de cordões de algodão, daqueles usados nos punhos das redes. E ninguém reclamava, porque também nunca aparecia alguém com vontade suficiente para fugir. Chamavam-no de general, embora ele não soubesse exatamente o que era um quartel. Na verdade, desconfiava que fosse algum tipo de depósito de redes ou talvez uma venda de rapadura. Seu verdadeiro talento não era comandar tropas, mas comandar cochilos. Depois do almoço, era sagrado: encostava numa sombra, ajeitava o chapéu sobre os olhos e mergulhava naquela soneca caprichada que ele chamava de " funheco ". Diziam até que o apelido nasceu daí, já que ninguém o via acordado o tempo suficiente para descobrir seu nome verdadeiro. Assim vivia o famoso General Funheco, guardião de um lugar onde os cachorros cochilavam nas ruas, as galinhas atravessavam a praça sem pressa e o maior crime reg...