Frio e solidão pareciam disputar espaço naquela tarde chuvosa, açoitada por rajadas de vento cortante. A montanha, verde e imponente, erguia-se como uma turmalina colossal guardada pelo próprio cosmos. Entre árvores cerradas e rochedos ancestrais, uma caverna escondia um lobo solitário, esquecido pelo tempo. A cada relâmpago, o clarão esculpia sombras que se agitavam como espectros, mais próximas de fantasmas do que simples reflexos da luz.
Dentro da caverna, o velho lobo carregava o peso da ausência da matilha. Doía-lhe sobretudo a falta das brincadeiras com os lobinhos, como apagar da memória o cheiro quente do sangue dos parentes, ou esquecer aquela mordida carinhosa nas orelhas que lhe arrancava uivos silenciosos? Agora, restavam-lhe apenas o frio e a solidão. Mas que escolha tinha, se seus ancestrais também haviam suportado as mesmas feridas abertas pelo tempo?
A chuva torrencial desabava sobre a entrada da caverna, enquanto o vento, em seus açoites impiedosos, lançava gotas geladas contra os olhos do velho lobo. Ele apenas os fechava, permitindo que a água se confundisse com as lágrimas de saudade. Então, o vento rugiu mais forte, transformando-se em um lamento profundo, como se fosse a voz da própria montanha. Esse som bastou para despertar nele a memória das primeiras perdas da matilha clamores de socorro que jamais pôde atender, ainda que tivesse oferecido a própria vida em troca.
A chuva intensificava-se, e outros animais buscavam refúgio na caverna. Aproximavam-se sem temor, como se compreendessem que o frio e a solidão já haviam drenado as forças do velho lobo. Se em tempos passados representara perigo, agora não passava de mais um vencido pelo tempo. Com esforço, ergueu-se e farejou entre as pedras. O que encontrou, porém, foi apenas sangue seco vestígio de um lobinho que, ao brincar com uma mariposa, acabara ferido. Para ele, aquele sinal era mais que um resquício: era uma lembrança viva, um fragmento de um instante marcante que o tempo não conseguiu apagar.
De súbito, um ancião adentrou a caverna. Não buscava abrigo, pois amava a chuva, mas seu instinto o guiara até ali, atraído pela tristeza que emanava do velho lobo. Aproximou-se e, com gesto sereno, lhe acariciando o dorso como quem consola um cão companheiro. Os demais animais não se incomodaram com a presença do homem, mas o lobo, surpreendendo-o, ergueu a voz em forma de pergunta: Estará pronto quando chegar a hora de encarar o passado, ou sofrerá tanto quanto eu sofro agora?
— Qual é o seu maior sofrimento: o frio, a solidão ou as lembranças?
— A saudade dos meus queridos… daqueles que alimentei e dos que me alimentaram. Onde estarão agora? Veja, meu velho, quando a consciência desperta para o peso do tempo, não é o abandono que mais fere. A dor maior é a lembrança, tão forte que até o espírito sente o frio do tempo irreversível. O perfume daquele abraço inocente, que não se importava com como você estava, queria apenas lhe envolver… esse é o fardo que jamais se apaga.
A chuva não cessava, e o frio dentro da caverna parecia ter se multiplicado. O lobo, perdido em sua angústia de ausência, e o ancião, tomado pelo temor do amanhã inevitável, compartilhavam o peso da profecia. O velho sabia que o lobo estava certo, mas também sabia que não estaria pronto e essa certeza o dilacerava. Ainda assim, lançou ao animal um olhar de gratidão, antes de sair para abraçar os seus, enquanto o tempo, soberano e implacável, ainda lhe concedia essa dádiva.
"O conhecimento é um farol na escuridão"

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