O espírito de Árion simboliza amizade e respeito, mas nesta fábula grandiosa talvez represente algo ainda maior. Em uma antiga cidade, onde as corridas de cavalos eram o espetáculo mais aguardado, havia um animal que dominava todas as atenções: Ventania, o favorito das apostas e orgulho dos domingos ensolarados.
Mas nada é eterno, e nem mesmo os animais estão livres das tragédias. Naquela tarde radiante, os corredores alinharam-se na pista. Na raia três, Ventania tremia de ansiedade, pronto para o disparo que anunciaria o início da corrida.
O tiro ecoou, e ele partiu com velocidade estonteante. Porém, na segunda curva, o destino foi cruel: seu coração falhou, e ao cair, quebrou as duas patas dianteiras. Junto com ele, desmoronaram também as esperanças e os bolsos daqueles que, domingo após domingo, lucravam com suas vitórias.
O veterinário foi categórico: Ventania precisava ser sacrificado. O dono, porém, recusou-se a aceitar a sentença. Levou-o para a cocheira, acreditando que ainda poderia oferecer-lhe algum alívio e uma despedida digna. Após os procedimentos para amenizar a dor, o homem encostou a testa na do cavalo e murmurou: — Amigo, vou cuidar de você. Agora descanse.
No dia seguinte, ao retornar, quase desmaiou de espanto: Ventania falou. — O veterinário estava certo. Precisa me sacrificar. Árion me visitou e disse que toda existência é feita de ciclos, e o meu chegou ao fim.
— Mas quem é Árion? Indagou o homem, atônito.
Ventania relinchou suavemente e respondeu: — Árion é o cavalo imortal, filho de Poseidon e Deméter. De linhagem divina, possuía o dom da fala e o poder de prever o futuro. Já ouviu falar dessas divindades? Em todas as minhas corridas, sua presença esteve comigo. Eu não sou apenas um cavalo; sou um elo entre deuses e humanos, portador de dons especiais.
O animal prosseguiu: — Durante anos, minhas vitórias sustentaram famílias. Mas agora chegou a hora de se reinventarem. Apenas me envolva em um abraço e não me solte até que meu corpo esteja frio. Quando isso acontecer, partirei para as nuvens, ao encontro de Árion. Meu espírito se unirá aos outros e, sobretudo, ao seu.
No calor daquele abraço de despedida, o homem compreendeu que a vida pode se manifestar de inúmeras formas, muitas delas além do corpo físico. Percebeu que as divindades são imortais, e que sua presença, invisível mas poderosa, se revela em silêncio. Em qualquer reino, o sobrenatural se faz presente, não basta vê-lo, é preciso senti-lo.
"O conhecimento é um farol na escuridão"

Nenhum comentário:
Postar um comentário