31 de mar. de 2026

Lembranças da Rua Suécia


As lembranças da rua Suécia não vivem apenas na memória; elas se materializam naquela casa singela, com o quintal de areia branca que tantas vezes se contrastava com o verde intenso e o vermelho vivo das pitangueiras. As manhãs traziam um misto de desafio e esperança, mas ao meio-dia, quando o transporte escolar anunciava sua chegada, surgia também a certeza: junto dele vinha uma energia radiante, um menino cuja presença iluminava a vida.

O universo, com seus mistérios, conduz transformações grandiosas. O que para alguns poderia parecer rotina, para outros era o renascer da existência. E ali estava ele, amor e inocência em perfeita harmonia, dando vida àquela casa.

As tardes se enchiam de brincadeiras com petecas, bola de meia, desenhos e construções de lego, sempre acompanhadas dos desenhos animados. Mas não era só isso: havia também os passeios até a padaria, o encanto de uma guloseima, o pão quentinho nas mãos, e o olhar curioso para a pracinha, onde correr e brincar era a tradução mais pura da infância.

O menino, de mãos pequenas, segurava firme o dedo mindinho do avô. Atento a tudo, parecia um guardião em miniatura, irradiando um encanto inesquecível. Tanto que, meses depois, já em outros endereços, a lembrança o fez chorar. Ao saber disso, emocionei-me e fui levado de volta à minha casinha de madeira, sob o pé de cajarana, quando eu também era apenas um menino. Eis a grandeza de poder ser criança: brincar livremente, guardar memórias doces e eternas.

Mas não se trata apenas da rua Suécia. Há também a canoa, o sapo, e as histórias fantásticas de Zezin Bacurim, Jupi, Zé Fiapo, General Funheco, o sapo da boca grande, e tantas outras invenções que povoavam nossos dias. Somos todos arquivos vivos, e em muitos momentos são justamente as lembranças que nos salvam. Hoje, mesmo em endereços distantes, seguimos próximos, sustentando diariamente essa mágica interação que nos une.

Que o universo ainda me conceda tempo para vê-lo crescer, e que o abençoe para ser alguém de bem, consciente de um mundo mais digno e justo. Mas quando eu já pertencer ao silencioso, e o comum universo da invisibilidade, que nossas lembranças permaneçam vivas.

E a todos aqueles que, em momentos difíceis, enfrentam a tristeza ou a ansiedade, desejo que encontrem um instante bom para recordar. Não como saudade que pesa e agrava o coração, mas como memória de momentos inesquecíveis, lembranças que existem para mostrar que a vida é mutação constante, e que precisa ser compreendida com delicadeza e coragem.

A vida é mesmo assim: somos peregrinos de caminhos incertos. No entanto, enquanto estivermos na Terra, existe um endereço sem CEP, o coração, onde podemos amar de forma autêntica, sobretudo aqueles que nos oferecem amor incondicional. Um dia, inevitavelmente, partiremos. Feliz é quem consegue deixar memórias, pois a saudade, por si só, é menos duradoura.

No livro O Enviado de Órion, o autor descreve o amor como uma conexão perfeita entre este e outros mundos. Assim, as lembranças da rua Suécia serão sempre o elo capaz de me ligar a qualquer endereço em que eu venha a estar no futuro.


"O conhecimento é um farol na escuridão"








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