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O Jardim do Vizinho


 O jardim do vizinho pode até parecer perfeito, com grama verde e flores radiantes, mas até quando a humanidade continuará presa a essa visão míope? A metáfora revela o quanto desconhecemos a realidade alheia: não sabemos quem é o jardineiro, quanto tempo dedica ao cuidado, nem o esforço que existe por trás da beleza. Essa ignorância nos cega e nos faz esquecer do essencial voltar, olhar para o nosso próprio jardim, que também merece atenção, zelo e reconhecimento.

Certa vez, em meio a uma floresta, as plantas rasteiras trocavam palavras e refletiam sobre o valor que tinham e o modo como eram tratadas. A salsa, exibindo suas delicadas flores, desabafou ao capim: — Veja minha condição! Pisam sobre meus ramos, quebram meus galhos, enquanto aquele cedro recebe rega, poda e cuidados constantes, até exagerados.

Uma coruja buraqueira, que escutava a conversa, aproximou-se e disse à salsa: — Mas e as abelhas, as borboletas, ou até mesmo as crianças que se encantam com você... isso não conta?

— Ah, você voa, não entende nada da vida das plantas retrucou a salsa.

A coruja, serena, respondeu: — Eu observo todos os reinos, e sobretudo os humanos. Eles acreditam administrar muito bem a vida alheia, mas se enganam: não conseguem sequer resolver seus próprios problemas mais simples.

— Tente viver, dona salsa. Sinta o amor de quem a procura, das abelhas, das crianças, das borboletas. Esqueça o cedro, pois ele também carrega suas dificuldades.

A salsa, porém, balançou seus ramos em firme negação, recusando-se a aceitar a observação da coruja.

Alguns meses se passaram. Numa manhã ensolarada, chegaram homens à floresta e, após medir a circunferência do cedro, um deles disse ao outro: — Está no ponto. Ligue a motosserra, vamos levá-lo para a serraria.

O cedro, majestoso até então, começou a tombar. Logo foi reduzido a toras de diferentes tamanhos.

A coruja, que repousava em um dos galhos, voou até a salsa e murmurou: — Veja o cedro... Ele já está caindo. Você percebe? Quanto a você, seus galhos não foram destruídos, apenas sofreram pequenos machucados.

A metáfora do jardim do vizinho nos lembra das vidas, conquistas e dores que pertencem ao mundo alheio. Enquanto desviamos o olhar para além do muro, esquecemos que poderíamos valorizar e cultivar melhor o nosso próprio espaço. Muitas vezes, estamos em uma condição mais confortável do que imaginamos, sobretudo se comparada à de tantos outros. É válido inspirar-se em exemplos de sucesso, mas sem jamais perder de vista a prioridade essencial: administrar e cuidar da nossa própria vida.


"O conhecimento é um farol na escuridão"


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