Na ciranda da vida, somos todos músicos e dançarinos. Não importa o som burguês de pianos e violinos, pois a batida dos tambores e atabaques ecoa como resistência popular. O mistério da ciranda é tão profundo que pode nascer nos terreiros das comunidades e, ao mesmo tempo, se entrelaçar aos corais da capela Sistina.
Dançar conforme a música já não parece escolha: é necessidade vital para nutrir corpo e alma. Os sons dessa ciranda, tão reais na luta pela sobrevivência, talvez um dia alcancem os ouvidos de alguma divindade e a inspirem a interceder pelo universo trazendo dias melhores para aqueles que dançam e contam histórias, para não sucumbirem à tristeza.
Tal qual o pescador em seu pequeno barco enfrentando o vendaval, resta-lhe apelar à sorte ou molhar a vela com a água do mar, para que pese e não se afaste tanto do destino traçado. Assim somos nós: se hoje a ciranda parece mais leve, é porque muitos de nossos ancestrais dançaram nos terreiros não para celebrar, mas para suportar a dor e reacender a esperança.
Que o batuque nas cozinhas e quintais ressoe cada vez mais forte, espalhando a energia vital em cada quizomba, e que as cirandas sejam infinitas como o pó da terra, esse pó que, sem distinção, acolhe e abraça todas as raças.
A ciranda da vida nos acompanha todos os dias, marcada por confianças e incertezas, altos e baixos, tão constantes quanto as ondas do mar. Em certos momentos, precisamos assumir o papel de maestro de nossa própria orquestra e fazê-la tocar. Há porém, um detalhe essencial: é preciso estar preparado tanto para aplausos quanto para vaias. Como nos concertos, alguns permanecem até o fechar das cortinas, enquanto outros se retiram logo no início. Em qualquer situação, a orquestra deve continuar tocando.
Assim é a ciranda da vida: uma música que não pode parar, mesmo diante das imprevisibilidades do público e do destino. Vamos celebrar a vida, e a esperança. Vamos dançar nossa ciranda, agradecendo ou confiando na graça que há de chegar, na roda da existência, somos ao mesmo tempo nobres e plebeus, unidos pelo compasso único da vida.
Salve, salve a igualdade, ainda que seja esta, imperfeita, mas necessária pois a vida é uma só, e nela todos cabem.
"O conhecimento é um farol na escuridão"

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