Eu e as mulheres: uma relação tripla de amor, desejo e medo. Amor, porque compreendo que nunca amamos o bastante; sempre há espaço para amar mais, e de forma mais consciente. Desejo, esse vasto oceano de emoções onde tantas vezes deixamos a razão em segundo plano. Medo, que para mim funciona como um escudo protetor: lembra-me de que, mesmo existindo o desejo, ele jamais deve superar a razão. É a responsabilidade de respeitar quem amamos, pois além da família que nos serve de exemplo, há pessoas que simplesmente não podemos decepcionar.
Quando jovem, parecia que a influência de Sagitário me moldava como um aventureiro, o arqueiro sempre em busca de um novo alvo. Uma dessas conquistas aconteceu numa noite de sábado. Depois de algumas cervejas geladas, convidei minha namorada para irmos a um lugar especial, talvez eu fosse o mais interessado naquela aventura. No quarto, iluminado apenas pela luz pálida de um abajur, meus olhos repousavam sobre aquela jovem de pele morena, olhar profundo e escuro, que parecia conter segredos e universos inteiros.
À média luz, percebi pequenas lágrimas em seus olhos e perguntei o motivo. Ela respondeu que não estava preparada para aquele momento, que havia se precipitado ao dizer “sim”. Mesmo sob o efeito do desejo e da bebida, fui rápido como um guerreiro que arma o arco e disse: “Então se vista, vamos ao cinema.” E assim fomos ao Cine Gazeta assistir Black Emanuelle.
Ela, com o olhar um pouco sem jeito, e eu com a certeza íntima de ter sido iluminado em minha decisão. Não ter cometido uma violência emocional foi, para mim, um ato de consciência: sabia que uma ferida assim poderia demorar a cicatrizar, e eu jamais me perdoaria. No escurinho do cinema, de vez em quando, vinha um abraço apertado, como se fosse um agradecimento silencioso por eu ter respeitado sua desistência. Naquela noite compreendi que não era apenas um jovem conquistador; era alguém que amava a vida e que tinha controle sobre suas próprias emoções.
Meses depois já estávamos separados, e aquele corpo escultural deixou de fazer parte da minha vida. O que permaneceu em minha memória não foi a imagem, mas sim a importância daquela decisão. Hoje penso em pais e mães que não conseguem dormir tranquilos diante de tanta violência, especialmente quando os números de feminicídios se tornam alarmantes. Somos todos mulheres na defesa da vida, a luta é tão nossa quanto delas. Amar nunca é possuir; amar é reconhecer que ninguém é dono de ninguém, é fazer valer a consciência e a razão.
"O conhecimento é um farol na escuridão"

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