Noites de junho. O cheiro das fogueiras entra suavemente pela janela do quarto e me envolve com lembranças do passado. É impossível esquecer aquele tempo de meninice e a beleza das festas juninas, as pequenas bombas estourando, os fogos riscando o céu escuro com traços coloridos. A fragrância da juventude, as moças se enfeitando para a festa, tudo parecia mágico. A inocência ainda morava entre nós. Às vezes, me chamavam para abotoar seus vestidos e me presenteavam com um perfume ou um abraço. E eu pensava, em silêncio: ah, quando eu crescer...
Fecho os olhos e tento mergulhar ainda mais naquele tempo simples e inesquecível. Nesse instante, uma alma antiga se senta na soleira da janela e murmura baixinho: “Moço, o passado é como as águas de um rio, corre e nunca mais volta.” Também vivi épocas douradas, sem tecnologia, mas repletas da magia de uma vida feita de sofrimentos e sonhos. O tempo, sábio e silencioso, realiza mudanças que só ele é capaz de compreender.
Faz muito tempo que vi aquela cena. O dia amanhecia, e o dono do bar começava a varrer o chão, levando consigo tampas de garrafas e pontas de cigarros, vestígios da noite que se desfazia. Sem perceber, varria também sonhos e desilusões de uma madrugada que, por instantes, parecia uma deusa acolhendo todos sem distinção.
Um homem atravessou a porta de vai-e-vem, escolheu o canto mais escuro do bar e pediu uma bebida. Do bolso do casaco surrado retirou uma fotografia amarelada, beijou-a com devoção e, transformando o copo em porta-retrato improvisado, deixou a imagem visível, como se quisesse que o mundo inteiro testemunhasse sua saudade.
E ali permaneceu, bebendo até que o dia adormecesse e a noite surgisse com seu manto de encantos. Tragou o cigarro e soprou a fumaça dentro do copo, que se desfez em fantasmas risonhos zombando de sua solidão. A fotografia amarelada era da primeira namorada, aquela que conhecera numa festa junina. E onde está ele agora? Aqui, na Terra, envolto novamente pelo passado. A noite é apenas o dia que repousa, e o passado, o travesseiro do tempo. Mesmo que pareça macio, é preciso despertar e seguir adiante, até mesmo as almas antigas.

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