A bruxa Filomena não se parecia em nada com suas colegas. Guardava em si uma centelha rara de bondade, sempre voltada para os mais frágeis e esquecidos. Mas havia nela um traço curioso: uma sensibilidade exagerada, aquilo que os humanos chamam de “coração amanteigado”.
Numa noite de chuva intensa, enquanto voava sobre os campos para levar remédios a um vilarejo, Filomena avistou uma cena que a tocou profundamente. Uma velhinha, encolhida sob o vento frio, lutava para acender o fogo em seu fogão a lenha. Por mais que tentasse, a madeira encharcada não se deixava consumir pelas chamas.
Filomena pousou suavemente diante da casa e recostou-se na porta, escutando o murmúrio da velhinha: — A noite é longa e a fome aperta... mas milagres acontecem, e eu ainda hei de preparar minha janta.
Comovida, a bruxa chamou: — Ô de casa!
A senhora veio atender, surpresa com a visita inesperada. Sem hesitar, Filomena olhou para vassoura, partiu-a em pedaços, misturou as palhas e, com um sopro mágico, fez nascer o fogo. As chamas dançaram vivas no fogão.
— Pronto, disse ela com ternura. Agora pode preparar seu jantar.
A velhinha, surpresa e curiosa, perguntou: — Mas como você vai voar agora, sem sua vassoura?
Filomena sorriu com serenidade: — Sempre há um jeito quando oferecemos amor.
Ao lado do fogão, repousava um jerimum enorme, próximo a um pote de barro. A senhora, com gratidão, ofereceu: — Leve-o com você, minha filha.
A bruxa agradeceu e, ao chegar ao terreiro, acomodou-se sobre o fruto. Com delicadeza, fez dois orifícios que lembravam olhos, segurou firme o talo e, com um toque de sua varinha mágica, transformou o jerimum em uma esplêndida abóbora voadora.
Arádia havia convocado uma grande convenção, e pouco a pouco as bruxas iam chegando. Entre elas, Circe apareceu com o semblante orgulhoso, montada em uma vassoura de diamante, feita da presa de um elefante e adornada por uma cauda cintilante. Filomena, por causa do ocorrido na noite anterior, acabou se atrasando. As bruxas, reunidas, erguiam os olhos para o céu escuro, aguardando sua chegada.
De repente, avistaram algo arredondado cortando os ares em alta velocidade. Pensaram, por um instante, que fosse uma criatura extraterrestre, e rapidamente se camuflaram em suas vassouras. Mas logo perceberam: era Filomena, pousando com graça sobre seu jerimum encantado.
Quando Filomena pousou, advertiu com firmeza: — Ninguém deve mexer nos olhos do meu objeto voador.
Circe, com ironia no olhar, ignorou o aviso. Aproximou-se e enfiou dois dedos nos orifícios do jerimum. Num instante, sofreu mordidas inesperadas e saiu em disparada, soltando gritos aterrorizantes que ecoaram pelo bosque.
Logo em seguida, centenas de pequenas bruxinhas surgiram do interior da abóbora, cada uma carregando potinhos de remédios. Elas se espalharam pelo céu, voando sobre as árvores em direção às aldeias.
Filomena então explicou com calma: — Elas foram distribuir remédios aos menos favorecidos. Mas vão voltar. Portanto, mantenham distância do meu objeto voador... bem distante.
No mundo mágico da imaginação, tudo pode acontecer. O motivo das risadas de Ben diante do conto da bruxa Filomena, permanece um segredo guardado. Talvez, em seu coração bondoso, ele não aprovasse o orgulho de Circe. Ou, quem sabe, em sua imaginação fértil, enxergasse Filomena cruzando os céus montada em um imenso jerimum voador.
Quando há inocência e sensibilidade, o simples se torna grandioso, e basta para arrancar o sorriso puro de uma criança.
"O conhecimento é um farol na escuridão"

Sorrir, derruba muralhas.
ResponderExcluirSim, existe uma energia forte nesse ato.
ExcluirGrato.
Oi mano
ResponderExcluirOlá, muito feliz com sua visita.
ExcluirGrande abraço