A poeira do tempo envolve a todos, e muitos se perdem em seus próprios desertos. Caminhar pelo deserto exige mais do que força: exige fé, essa fé tão questionada. O anjo que atravessou as águas tinha poder e proteção, mas ainda assim precisou sentir no rosto o ardor da areia escaldante.
Ao contrário da poeira do deserto, que cega e queima, a poeira do tempo é discreta, envolvente e silenciosa. Em certas fases da vida, acreditamos na doce ilusão de cavalgar um cavalo alado, sem perceber que, por felicidade, seguimos montados em um simples pangaré. E mesmo que tenham trocado nossa montaria, a jornada se torna mais leve, e o cansaço, menor.
Houve um tempo em que eu não compreendia os limites, e quase nada me preocupava. Naquele período, eu sequer sentia o peso que carregava, pois alguém suportava a carga mais pesada por mim. Mas a vida sempre reserva surpresas: há instantes de lago sereno e, logo depois, de correntezas impetuosas. Essas águas não surgem para nos destruir, mas para nos ensinar.
Em um sonho, uma anciã me disse: “Filho, não escolha a moringa pela beleza, mas pela abundância que guarda. A travessia será longa e desafiadora, e precisarás de forças para suportar a poeira do tempo.” Acordei e, ao recordar o sonho, sorri e comentei: “Pobre senhora… só porque está no fim da vida, pensa que todos já estão cansados.”
Na noite seguinte, sonhei novamente com a anciã. Seu sorriso era meigo, sua voz, serena. Ela disse: “Eu também já fui jovem. Os desertos me ensinaram a cair e levantar, e sobretudo a compartilhar. Não bebas a água de tua moringa em goles grandes; toma apenas o suficiente para enganar a sede. Sê prudente, pois tua viagem será longa, e os desertos são implacáveis.”
A cada novo dia, recordo a senhora do sonho, talvez um anjo de um tempo distante, que veio me alertar sobre o futuro. Quem antes carregava meu fardo já não está comigo, e precisei aprender a suportar não apenas o meu peso, mas também o de outros. É justo: quem um dia sobrecarregou alguém, cedo ou tarde terá de carregar sua própria carga.
Talvez eu esteja apenas no início do redemoinho, aquele que me lançará adiante, concedendo força e coragem para prosseguir. Uma certeza, porém, me acompanha: não tentarei fugir da poeira do tempo. Administrarei minhas forças, pois sei que precisarei me levantar muitas vezes… e o farei sem reclamar.
Depois de muitos anos daquele sonho, compreendi a metáfora: a moringa é a vida, a água é a esperança, e os desertos… ah, cada um deles é feito de labirintos e desafios. Não tenho dúvidas de que tudo isso vem purificando meu espírito. Estou mais leve, mais consciente, e certo de que farei muito melhor se um dia voltar.
Meus erros nunca foram intencionais, alguns nasceram do impulso, outros da falta de sabedoria. Mas a poeira do tempo tem limpado aquilo que minha inteligência não soube resolver. Viva a vida! Que possamos olhar para dentro de nosso espírito e corrigir o que nos for permitido; o restante, o tempo se encarrega de cuidar.

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