A Trindade havia combinado um encontro numa taverna erguida sobre a falésia da curva, alta, esculpida ao longo de milhões de anos, um cenário perfeito para acolher o possível e o imaginário. O Presente chegou primeiro. O taverneiro passou uma toalha sobre a bancada de pedra polida e perguntou:
— Uma bebida? — Sim. — E o que vai ser? — Um energético.
Logo a porta de vai‑vem rangeu novamente. Por ela entrou o Passado. Cumprimentou o Presente, lançou um olhar ao Tempo, o proprietário da taverna, e pediu: — Uma taça cheia de solidão. Que seja das grandes.
O Presente cumprimentou o recém-chegado e comentou: — E ele, atrasou por quê?
Antes mesmo que o Passado pudesse responder, o Tempo acenou em direção a uma mesa no fundo da taverna. — Seria o Futuro? murmurou. Está sempre adiante, nunca se atrasa.
Eles voltaram o olhar para o Tempo, e um deles comentou: — Você parece mais complicado do que nós três juntos. Veja o que fez com a falésia.
O Tempo, sereno, respondeu: — Não fiz sozinho. O vento me ajudou. Aliás, ninguém vence sozinho.
Então, tocando com o polegar o ombro do Presente, acrescentou: — Não se julgue tão importante. Amanhã você será Passado.
Voltaram os olhos para o Futuro, que fez sinal para que mantivessem distância. Em tom firme, lançou uma crítica severa: — Não podemos estar juntos em nenhum lugar, nem mesmo aqui, onde o imaginário ganha vida. O Tempo sabe muito bem: somos de épocas diferentes, cada qual em seu instante de existência.
E prosseguiu, dirigindo-se ao Presente: — Desapegue do Passado, ele não retornará. E quando olhar para mim, jamais terá certeza do que vê. A cada instante sou outro, sempre em mudança.
Enquanto a Trindade filosofava entre verdades e teorias, o Tempo se afastou para receber novos clientes, que não paravam de chegar. Já não havia mesas suficientes: solidão, tristeza, desilusão, sonhos, desalentos e acalantos misturavam-se aos abastados, aos ébrios e aos moribundos. E, por incrível que fosse, ninguém reclamava. Amontoavam-se apenas para ouvir a Trindade, Passado, Presente e Futuro.
Após longo debate, quando as andorinhas já começavam a deixar os ninhos nas cavidades da falésia, todos se voltaram para o balcão. Em vozes sincronizadas, pediram ao Tempo que se pronunciasse.
Ele subiu sobre a pedra polida da recepção, agradeceu a todos e declarou: — Somos abençoados com um dom divino. Toda a existência é presenteada com a Santíssima Trindade: Presente, Passado e Futuro. Este último, quase sempre, é a soma dos outros dois. Eu disse “quase sempre”, porque no universo não há regra exata sobre a existência.
"O conhecimento é um farol na escuridão"

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