O General Funheco era o grande responsável pela segurança de um povoado tão tranquilo, mas tão tranquilo, que as grades da prisão eram feitas de cordões de algodão, daqueles usados nos punhos das redes. E ninguém reclamava, porque também nunca aparecia alguém com vontade suficiente para fugir.
Chamavam-no de general, embora ele não soubesse exatamente o que era um quartel. Na verdade, desconfiava que fosse algum tipo de depósito de redes ou talvez uma venda de rapadura. Seu verdadeiro talento não era comandar tropas, mas comandar cochilos.
Depois do almoço, era sagrado: encostava numa sombra, ajeitava o chapéu sobre os olhos e mergulhava naquela soneca caprichada que ele chamava de "funheco". Diziam até que o apelido nasceu daí, já que ninguém o via acordado o tempo suficiente para descobrir seu nome verdadeiro.
Assim vivia o famoso General Funheco, guardião de um lugar onde os cachorros cochilavam nas ruas, as galinhas atravessavam a praça sem pressa e o maior crime registrado nos últimos cinco anos fora o desaparecimento misterioso de uma panela de mungunzá.
Mas toda calmaria tem seus dias contados.
Mas o que parecia generosidade logo revelou seu verdadeiro preço. As bebidas e os cigarros provocavam irritação, impaciência e desentendimentos. Vizinhos que antes compartilhavam café passaram a trocar insultos. Amigos viraram adversários. Pequenas discussões transformaram-se em grandes brigas.
O povoado, antes conhecido pela paz e boa convivência, mergulhou em confusões nunca vistas. E quem mais sofreu com a mudança foi o General Funheco. Seus preciosos cochilos da tarde passaram a ser interrompidos por gritos, discussões e pedidos de socorro.
O pobre General Funheco já não conseguia completar um único funheco em paz. Mal fechava os olhos e lá vinha alguém aos berros:
— General! Generaaal! Acuda aqui!
Assustado, levantava pensando que era assalto, invasão ou revolução. Mas não.
— A vaca do vizinho se deitou em cima da minha porca!
Antes mesmo que pudesse entender como uma vaca foi parar em cima de uma porca, outro morador apareceu correndo:
— General! O cavalo do seu Zezim matou o cachorro do seu Pedrosa com um coice!
O General coçava a cabeça, suspirava fundo e tentava anotar a ocorrência, quando um terceiro sujeito o puxava pela manga:
Sem dizer uma palavra, caminhou até sua casa. Abriu um velho baú escondido sob o assoalho e retirou uma espada que ninguém jamais tinha visto. Diziam as lendas que aquela arma fora forjada nos tempos antigos, quando os homens ainda respeitavam o cochilo alheio.
Com passos lentos e solenes, seguiu para o centro do povoado. Os moradores, curiosos, interromperam as discussões e o acompanharam em silêncio.
Quando chegou à praça, o General Funheco ergueu a espada para o céu.
Sua paciência acumulada durante anos transformou-se em pura fúria.
Com um grito estrondoso, puxou a lâmina do alto para baixo.
O golpe rasgou o ar.
Uma língua de fogo serpenteou pela terra, iluminando o povoado inteiro. O chão tremeu. Pedras saltaram. Galinhas correram em desespero. Cachorros uivaram. Até os grilos pararam de cantar.
Então surgiu uma enorme fenda no solo, cortando a praça ao meio.
De um lado ficaram os briguentos, valentões, fofoqueiros e criadores de confusão.
Do outro, os calmos, os pacíficos, os que só queriam viver sua vida sem tomar parte nas encrencas dos vizinhos.
O silêncio tomou conta do lugar.
O General Funheco fincou a espada no chão com tanta força que o cabo ficou tremendo.
Então apontou para a vala fumegante e rugiu:
— ESCUTEM BEM!
Sua voz ecoou pelas casas, pelos currais e pelas serras ao redor.
— Eu vou tirar um funheco!
Ninguém se moveu.
Ninguém respirou.
Ninguém mesmo.
— Quem me acordar... vai parar na vala!
Dizem que, naquele instante, até o vento mudou de direção para não fazer barulho. E pela primeira vez desde a chegada do estranho, o povoado inteiro permaneceu em absoluto silêncio, enquanto o General Funheco partia em busca do mais merecido funheco de toda a sua carreira.
Dizem que, naquele instante, aconteceu algo que ninguém jamais conseguiu explicar.
O dono da venda, vendo que suas confusões já não tinham mais vez naquele povoado, montou em um cavalo de fogo que surgiu do nada, como uma chama galopante sob o céu da tarde. Sem dizer palavra, correu em direção à grande fenda aberta pelo General Funheco.
Num salto espetacular, desapareceu dentro das chamas.
Quem ele era?
De onde veio?
Para onde foi?
Ninguém sabe.
O que todos sabem é que, no exato momento em que ele sumiu, a fenda flamejante começou a se fechar. As labaredas desapareceram, a terra voltou ao lugar e a paz retornou ao povoado.
Os vizinhos voltaram a conversar sem brigar. Os animais deixaram suas desavenças de lado. As galinhas pararam de discutir com os patos, os cachorros esqueceram os coices dos cavalos e até as onças resolveram cuidar da própria vida.
E o General Funheco?
Bem, ele voltou à sua ocupação favorita: os lendários funhecos da tarde.
Desde então, uma importante mensagem ficou para todos:
Não discuta por qualquer bobagem. Beba com moderação. Respeite os direitos dos outros. Espalhe gentileza em vez de provocações.
Afinal, corre a notícia de que o General Funheco anda viajando pelos povoados, diminuindo confusões, apagando intrigas e distribuindo advertências aos criadores de encrenca.
E quem o conhece sabe que existe uma lei muito simples:
A vida é bela. Então, para que torná-la feia com brigas, ofensas e desrespeito?
Melhor compartilhar um sorriso, fazer um amigo e deixar o General Funheco descansar em paz... porque um funheco interrompido pode ser mais perigoso do que uma fenda flamejante aberta no meio da praça! 😄
"O conhecimento é um farol na escuridão"
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