14 de jun. de 2026

Contos e Encantos: Noites de Junho

Contos e Encantos: Noites de Junho:   Noites de junho. O cheiro das fogueiras entra suavemente pela janela do quarto e me envolve com lembranças do passado. É impossível esque...

Noites de Junho

 


Noites de junho. O cheiro das fogueiras entra suavemente pela janela do quarto e me envolve com lembranças do passado. É impossível esquecer aquele tempo de meninice e a beleza das festas juninas, as pequenas bombas estourando, os fogos riscando o céu escuro com traços coloridos. A fragrância da juventude, as moças se enfeitando para a festa, tudo parecia mágico. A inocência ainda morava entre nós. Às vezes, me chamavam para abotoar seus vestidos e me presenteavam com um perfume ou um abraço. E eu pensava, em silêncio: ah, quando eu crescer...

Fecho os olhos e tento mergulhar ainda mais naquele tempo simples e inesquecível. Nesse instante, uma alma antiga se senta na soleira da janela e murmura baixinho: “Moço, o passado é como as águas de um rio, corre e nunca mais volta.” Também vivi épocas douradas, sem tecnologia, mas repletas da magia de uma vida feita de sofrimentos e sonhos. O tempo, sábio e silencioso, realiza mudanças que só ele é capaz de compreender.

Faz muito tempo que vi aquela cena. O dia amanhecia, e o dono do bar começava a varrer o chão, levando consigo tampas de garrafas e pontas de cigarros, vestígios da noite que se desfazia. Sem perceber, varria também sonhos e desilusões de uma madrugada que, por instantes, parecia uma deusa acolhendo todos sem distinção.

Um homem atravessou a porta de vai-e-vem, escolheu o canto mais escuro do bar e pediu uma bebida. Do bolso do casaco surrado retirou uma fotografia amarelada, beijou-a com devoção e, transformando o copo em porta-retrato improvisado, deixou a imagem visível, como se quisesse que o mundo inteiro testemunhasse sua saudade.

E ali permaneceu, bebendo até que o dia adormecesse e a noite surgisse com seu manto de encantos. Tragou o cigarro e soprou a fumaça dentro do copo, que se desfez em fantasmas risonhos zombando de sua solidão. A fotografia amarelada era da primeira namorada, aquela que conhecera numa festa junina. E onde está ele agora? Aqui, na Terra, envolto novamente pelo passado. A noite é apenas o dia que repousa, e o passado, o travesseiro do tempo. Mesmo que pareça macio, é preciso despertar e seguir adiante, até mesmo as almas antigas.


"O conhecimento é um farol na escuridão"

5 de jun. de 2026

Contos e Encantos: Prazo de Validade

Contos e Encantos: Prazo de Validade:   O prazo de validade não se aplica apenas a produtos específicos nós, seres humanos, também somos inseridos nessa lógica de avaliação. É la...

Prazo de Validade

 


O prazo de validade não se aplica apenas a produtos específicos nós, seres humanos, também somos inseridos nessa lógica de avaliação. É lamentável perceber que, ainda hoje, pessoas consideradas “com validade quase vencida” sofrem com preconceito e exclusão. Embora não seja uma prática universal ignorar idosos ou pessoas debilitadas, no Brasil ainda há um longo caminho a percorrer para reduzir discriminações e garantir que direitos e dignidade sejam plenamente respeitados.

Em países cuja cultura valoriza mais a experiência humana, o idoso é reconhecido como fonte de sabedoria e referência de vida, recebendo respeito e tratamento digno. No Brasil, porém, ainda é comum o desprezo cotidiano dirigido às pessoas idosas. A quem recorrer, se os órgãos responsáveis parecem funcionar como arquivos mortos, onde a voz do idoso perde espaço e relevância? Durante campanhas eleitorais, políticos abraçam moradores de rua e demonstram compaixão; mas, uma vez eleitos, muitos ignoram o direito de cidadania e se tornam cegos e mudos diante das necessidades reais da população.

Essa distorção cultural exige mudanças urgentes. É necessário criar e aplicar leis que identifiquem e punam aqueles que ferem os direitos do idoso. O mais curioso é que todos os dias, quem está vivo envelhece e se aproxima do chamado “prazo de validade vencida”, mas ainda assim leigos e ignorantes circulam livremente, perpetuando preconceitos. Não é aceitável que se ignore o verdadeiro conceito de família: quase todos têm parentes, amigos ou conhecidos em idade avançada. Fugir dessa realidade é negar a própria condição humana. Ser um pouco mais humano e consciente é reconhecer que o tempo passa para todos, e que dignidade não pode ter prazo de validade.

Cidadania: quando será, de fato, implantada de forma racional? Já basta de fechar os olhos para um problema que cresce em velocidade alarmante. Vocês, políticos e defensores da garantia dos direitos, onde estão escondidos? O poder de aplicar a lei nunca esteve, e não está, nas mãos dos menos favorecidos. Cabe às autoridades competentes assegurar o exercício da cidadania, com multas, punições e prisões para todos que, de forma dolosa e preconceituosa, ferem a dignidade humana. A vida também tem prazo de validade, e antes que ele se encerre, precisa ser vivida com respeito e dignidade.


"O conhecimento é um farol na escuridão"

18 de mai. de 2026

Contos e Encantos: O Arqueiro Celeste

Contos e Encantos: O Arqueiro Celeste:   O arqueiro celeste, ao mirar o infinito, não age por acaso. Desde tempos imemoriais, civilizações já extintas levantavam os olhos ao firma...

O Arqueiro Celeste

 


O arqueiro celeste, ao mirar o infinito, não age por acaso. Desde tempos imemoriais, civilizações já extintas levantavam os olhos ao firmamento em busca de respostas para suas existências — muitas vezes marcadas pela dor e pela dificuldade, mas sempre sustentadas pela chama da esperança.

Quíron, ao apontar para o universo, simboliza a certeza de um poder ilimitado. Sua seta não busca apenas um destino, mas um novo mundo além dos padrões convencionais, onde a necessidade de evolução é tão concreta quanto o trono inatingível que repousa sob o olhar humano.

A astrologia, ciência cultivada por povos ancestrais, reconhecia a influência dos planetas sobre a humanidade. Contudo, há uma carência ainda maior: a de uma verdadeira conexão espiritual, capaz de expandir o espírito e promover a evolução. O corpo físico é apenas uma vestimenta terrena e passageira; já o espírito, essência da vida, permanece e continua sua jornada.

A jornada da alma na Terra ainda se encontra em seus primeiros passos. O despertar para o autoconhecimento, capaz de iluminar o espírito, não é prioridade para muitos, sobretudo em culturas que acreditam que tudo se encerra com a morte.

A interação entre espíritos, guiada por afinidades e níveis de consciência, continua a suscitar dúvidas. O olhar materialista ignora que líderes e condutores externos não podem oferecer verdadeira paz ao espírito, pois essa energia é fruto de uma conexão íntima e individual. Cada ser constrói, por si mesmo, o elo que o une ao universo.

Na visão espírita, não há crédito à influência astrológica. Ainda assim, Sagitário é reconhecido como signo da expansão, da busca incessante pelo conhecimento e da fé inabalável. Seu otimismo pode parecer desmedido, mas revela um nível de espiritualidade que transmite serenidade e confiança. Saber esperar torna-se uma virtude, pois as leis universais se cumprem em seu tempo e forma, independentemente da vontade humana. Questionadas por muitos, essas leis não carecem de validade, mas sim de sabedoria para serem compreendidas em sua razão mais profunda.

Precisamos de luz, e ela se manifesta na medida da nossa busca por conhecimento e consciência. A humildade e a bondade são como incensos que perfumam o espírito, trazendo o sopro de liberdade que tanto desejamos e necessitamos.

O mundo invisível existe, e torna-se acessível apenas aos espíritos que vibram em sintonia com o amor. Sem essa energia essencial, somos como pássaros sem ninho, vagando sem direção, privados da morada que só o coração pleno pode construir.


"O conhecimento é um farolna escuridão"

16 de mai. de 2026

Contos e Encantos: A Vida Acontece Assim

Contos e Encantos: A Vida Acontece Assim:   A vida se revela assim: surpreendente e desafiadora em todas as suas fases. Nós, seres humanos, carregamos uma energia extraordinária que ...

A Vida Acontece Assim

 


A vida acontece assim: surpreendente e desafiadora em todas as suas fases. Nós, seres humanos, carregamos uma energia extraordinária que nos impulsiona a vencer por meio da ação e da esperança. Mas é essencial compreender que esperança é parceria, não basta cruzar os braços e esperar que algo aconteça; isso seria milagre, e nem todos estão preparados para recebê-lo.

Nos acontecimentos da vida, muitas vezes enfrentamos dificuldades para entender os motivos. O grande segredo é abandonar a ideia de merecimento, porque “merecer” é algo relativo, moldado pelo que somos e pelas circunstâncias que nos cercam.

A vida se desenrola assim: dúvidas intensas que nos tiram o sono, propósitos pessoais abalados por fatores externos que nos envolvem, e o constante medo de errar. No entanto, é preciso compreender que o maior erro não está na tentativa em si, mas em nos curvar diante dos desafios sem enfrentá-los.

Sim, é possível construir uma vida mais saudável e feliz, mas isso exige algo que muitos temem: o sacrifício. E sei que alguns dirão: “Já fiz tantos sacrifícios e minha vida continua difícil.” Ainda assim, o sacrifício não é garantia imediata de recompensa; ele é parte do processo de transformação, um caminho que nos fortalece e nos prepara para alcançar o que desejamos.

Já refletiram sobre a diferença entre fazer um sacrifício e se sacrificar? Muitas vezes acabamos nos entregando por completo para beneficiar os outros. No entanto, se antes de agir elaborarmos uma lista de prós e contras, a lógica pode nos guiar a decisões mais conscientes, sem que percamos o precioso tempo. Assim, evitamos desperdiçar bons momentos e compreendemos que cada escolha traz consigo um resultado, presente ou futuro, de grande importância para todos nós.

A vida, em sua fase especial, o nascer, já anuncia que seremos testados até o fim. Nessa imensa roda gigante, é indispensável aprender a subir e descer. Esse movimento, por vezes doloroso, é também um aprendizado vital.

É preciso destacar a extrema necessidade de aprender com perdas e ganhos. Lidar com circunstâncias adversas não é algo que desejamos, mas é um fortalecimento inevitável, e, surpreendentemente, essencial para nossa evolução.

Sorrisos e lágrimas, vitórias e derrotas, nascer e morrer, a vida se manifesta assim. Para aqueles que acreditam que há existência além desta vida, e eu defendo a ideia dos reencontros em dimensões especiais. Não adie o sorriso, não permita que o sucesso de alguém ofusque o seu momento único, aquele que invade a alma e nos faz esquecer que não é eterno. Justamente por não durar para sempre, torna-se um motivo ainda maior para ser vivido intensamente.

Gratidão, essa é a palavra mágica que faz o universo lembrar de nós. É preciso ter sensibilidade para ser feliz e aprender a olhar tanto para o antes quanto para o depois. A vida é como uma gangorra, e todos nós estamos nela. Precisamos erguer a cabeça e esperar por bons tempos. No início falei de esperança, e é exatamente isso: esperar sem se cansar. Que possamos encontrar paz e alegria, e que tenhamos sabedoria para doar parte dessa felicidade aos menos favorecidos.


"O conhecimento é um farol na escuridão"




9 de mai. de 2026

Contos e Encantos: Perigo e Proteção

Contos e Encantos: Perigo e Proteção: Perigo e proteção são presenças constantes e atuantes em nosso cotidiano, desafiando cada um de nós a não cair em armadilhas físicas ou emoc...

Perigo e Proteção


Perigo e proteção são presenças constantes e atuantes em nosso cotidiano, desafiando cada um de nós a não cair em armadilhas físicas ou emocionais.
Quando um caçador adentra a mata e prepara sua cilada, a gralha canta desesperadamente para alertar sobre o risco. No entanto, esse aviso não é suficiente para evitar que algumas vidas sejam sacrificadas. Sabe por quê? Sob a camuflagem de folhas nativas, o caçador esconde a arapuca ou o laço, colocando comida e água como isca para atrair animais famintos e sedentos. Assim, mesmo diante do alerta, muitos acabam sendo enganados pela promessa de alívio imediato.

Esse aviso também deveria servir para nós, humanos. Precisamos compreender que nem sempre a preocupação dirigida a nós tem como objetivo genuíno nos proteger. É verdade que ainda existe uma consciência coletiva, mas torna-se essencial cultivar atenção e cautela diante de uma bondade excessiva. Pais e mães, por exemplo, ensinam seus filhos a não aceitarem presentes de estranhos. O motivo é simples e profundo: proteger os inocentes das intenções de mentes doentes, que se escondem atrás de gestos aparentemente generosos.

O perigo muitas vezes se apresenta de forma disfarçada. Há pessoas que, no convívio familiar, não demonstram afinidade, mas diante de estranhos se mostram educadas e prestativas. São manipuladores que prometem resultados superiores à própria ciência; indivíduos que não conseguem amar nem a si mesmos, mas aparentam atenção e carinho com os outros. Eis aí um motivo legítimo para desconfiar.

A proteção, por sua vez, não precisa ser reconhecida por quem a oferece, mas deve se manifestar de maneira concreta. Malin, personagem do livro O Enviado de Órion, proclama o amor, mas também alerta sobre a presença de uma nuvem escura pairando sobre a Terra. Essa nuvem pode ser entendida como um perigo iminente, metáfora para alguns, parábola para outros, mas, independentemente da interpretação, o aviso está lançado.

**Desconfie de quem promete soluções imediatas para dores físicas ou emocionais. Não confie em quem exige comportamentos estranhos ou segredos absolutos. Mesmo que convivamos entre símbolos de luz e trevas, nenhuma santidade humana é plena.

Assim como o caçador utiliza alimento e água para atrair suas presas, os manipuladores oferecem promessas de milagres, curas, prosperidade e sucesso. É fundamental lembrar que os noticiários frequentemente revelam casos assustadores de pessoas que se aproveitam da fragilidade alheia, praticando crimes odiosos e inaceitáveis sob todos os aspectos.

O perigo está entre nós, silencioso e constante, mas também existe proteção. Saber como pedir ou oferecer ajuda é essencial, pois ninguém vence sozinho. A solidariedade é relativa: quem ajuda também se fortalece. Não confie em milagres realizados por mãos humanas, isso pertence às divindades, e nós não somos.

Acredite na justiça, na família, nas instituições responsáveis e comprovadamente sérias. Acredite em você: no seu valor, na sua vida, nos seus direitos. Essa confiança é fundamental, porque todos merecemos viver com dignidade. A certeza permanece: o perigo existe, mas a proteção também.


"O conhecimento é um farol na escuridão"

3 de mai. de 2026

Contos e Encantos: Eu e as Mulheres

Contos e Encantos: Eu e as Mulheres: Eu e as mulheres: uma relação tripla de amor, desejo e medo. Amor, porque compreendo que nunca amamos o bastante; sempre há espaço para a...

Eu e as Mulheres


Eu e as mulheres: uma relação tripla de amor, desejo e medo.
Amor, porque compreendo que nunca amamos o bastante; sempre há espaço para amar mais, e de forma mais consciente. Desejo, esse vasto oceano de emoções onde tantas vezes deixamos a razão em segundo plano. Medo, que para mim funciona como um escudo protetor: lembra-me de que, mesmo existindo o desejo, ele jamais deve superar a razão. É a responsabilidade de respeitar quem amamos, pois além da família que nos serve de exemplo, há pessoas que simplesmente não podemos decepcionar.

Quando jovem, parecia que a influência de Sagitário me moldava como um aventureiro, o arqueiro sempre em busca de um novo alvo. Uma dessas conquistas aconteceu numa noite de sábado. Depois de algumas cervejas geladas, convidei minha namorada para irmos a um lugar especial, talvez eu fosse o mais interessado naquela aventura. No quarto, iluminado apenas pela luz pálida de um abajur, meus olhos repousavam sobre aquela jovem de pele morena, olhar profundo e escuro, que parecia conter segredos e universos inteiros.

À média luz, percebi pequenas lágrimas em seus olhos e perguntei o motivo. Ela respondeu que não estava preparada para aquele momento, que havia se precipitado ao dizer “sim”. Mesmo sob o efeito do desejo e da bebida, fui rápido como um guerreiro que arma o arco e disse: “Então se vista, vamos ao cinema.” E assim fomos ao Cine Gazeta assistir Black Emanuelle.

Ela, com o olhar um pouco sem jeito, e eu com a certeza íntima de ter sido iluminado em minha decisão. Não ter cometido uma violência emocional foi, para mim, um ato de consciência: sabia que uma ferida assim poderia demorar a cicatrizar, e eu jamais me perdoaria. No escurinho do cinema, de vez em quando, vinha um abraço apertado, como se fosse um agradecimento silencioso por eu ter respeitado sua desistência. Naquela noite compreendi que não era apenas um jovem conquistador; era alguém que amava a vida e que tinha controle sobre suas próprias emoções.

Meses depois já estávamos separados, e aquele corpo escultural deixou de fazer parte da minha vida. O que permaneceu em minha memória não foi a imagem, mas sim a importância daquela decisão. Hoje penso em pais e mães que não conseguem dormir tranquilos diante de tanta violência, especialmente quando os números de feminicídios se tornam alarmantes. Somos todos mulheres na defesa da vida, a luta é tão nossa quanto delas. Amar nunca é possuir; amar é reconhecer que ninguém é dono de ninguém, é fazer valer a consciência e a razão.


"O conhecimento é um farol na escuridão"



29 de abr. de 2026

Contos e Encantos: Muros e Moinhos

Contos e Encantos: Muros e Moinhos:   Muros e moinhos simbolizam a tensão entre proteção e aventura. Em ambos os caminhos, o medo e a coragem coexistem, e escolher qual direção...

Muros e Moinhos


 Muros e moinhos simbolizam a tensão entre proteção e aventura. Em ambos os caminhos, o medo e a coragem coexistem, e escolher qual direção seguir sempre será um desafio. O provérbio “Quando sopram os ventos da mudança, alguns constroem muros, outros moinhos de vento” reforça a importância da adaptação diante das transformações inevitáveis.

Na fábula da vaca que foi para o brejo, o monge, ao lançá-la no penhasco, provocou nos donos a busca por alternativas. Ao perceberem a ausência da vaca, descobriram a imensa oportunidade de explorar suas terras. Dessa decisão nasceu um mundo de mudanças que trouxe prosperidade, mostrando que a perda aparente pode ser o início de uma nova realidade.

Os muros que acreditamos ser nossa proteção muitas vezes se tornam a “vaca que morre”, fruto da nossa resistência em agir e promover as mudanças necessárias. Já os construtores de moinhos se lançam na aventura, conscientes de que ninguém conquista sem tentar. Enquanto o tempo avança e arrasta consigo a juventude, os que erguem muros lamentam, choram ou questionam o inevitável; os que constroem moinhos, por sua vez, buscam se adaptar e reconhecem nas transformações algo natural e acessível a todos.

Quem se dedica a erguer muros, em geral, não vive plenamente o presente, pois já se perde em preocupações sobre o amanhã. Em contraste, aqueles que constroem moinhos de vento aproveitam cada instante possível, vivem mais intensamente e aceitam que cada aniversário é também um dia a menos na vida. Não se assustam com essa realidade, pois compreendem que “assim é, assim seja”, e ao aceitar, deixam que doa menos.

Afinal, qual seria a escolha certa? O “certo” é sempre relativo a cada pessoa. Eu, particularmente, prefiro os moinhos, pois erguer muros parece mais cansativo, e nada garante que um dia eles não venham a ruir. O medo de morrer e continuar sofrendo me leva a escolher viver o hoje, já que existir e apenas estar vivo são coisas muito diferentes.

Morrer e continuar sofrendo é permanecer preso a um amanhã cuja existência sequer conhecemos. Por isso, o caminho é viver, abraçar as mudanças e aceitar aquilo que o destino, ao longo de milênios, nunca conseguiu alterar: nascer, crescer e, depois…


"O conhecimento é um farol na escuridão"

Contos e Encantos: O Garra do Dragão

Contos e Encantos: O Garra do Dragão: A garra  do dragão é um conto dos tempos de reinos antigos, quando o poder valia mais que a razão e a integridade, vivia uma princesa que e...

28 de abr. de 2026

A Garra do Dragão



A garra do dragão é um conto dos tempos de reinos antigos, quando o poder valia mais que a razão e a integridade, vivia uma princesa que estava prestes a completar quinze anos. Para celebrar sua idade, o rei organizou uma grandiosa festa, ocasião em que também seria escolhido o príncipe guerreiro destinado a casar com ela.

Entre os pretendentes, destacava-se o filho de um rei poderoso: um jovem de porte físico imponente, conhecido pelo apelido de Destruidor de Corações. Não era por conquistar mulheres, mas por devorar o coração dos adversários derrotados em combate.

Quando os nomes dos candidatos foram anunciados, o dele surgiu por último. Para desespero da princesa, todos os outros desistiram diante de sua fama cruel. Então, ela se levantou, olhou para o pai e pediu um presente. O rei, curioso, respondeu: — Claro, princesa, peça o que desejar.

Ela chamou o jardineiro, um rapaz simples e honesto, e pediu ao rei que fosse ele o escolhido para ser seu esposo. O salão silenciou. O rei, surpreso, riu e disse: — Está bem, mas apenas se o jardineiro lutar e vencer o Destruidor de Corações. Não sabia que odiava tanto o jardineiro...

— Acredito que já vimos sangue demais em outras batalhas. Meu rei merece algo diferente, algo especial.

Então, com firmeza, declarou: — O jardineiro terá um mês para trazer como presente a garra de um dragão. Se não conseguir, pode marcar meu casamento com o Destruidor de Corações.

O rei, surpreso com a ousadia da filha, abraçou-a e comentou com um sorriso: — Seria mais fácil lutar... Mas está decidido assim.

A princesa, tomada pelo peso da própria decisão, chamou o jardineiro. Com voz serena, pediu desculpas pela imprudência cometida e, em seguida, colocou algumas moedas de ouro em suas mãos. — Corra, desapareça além das fronteiras do reino. Não quero ser culpada pela sua morte, disse ela, com os olhos marejados.

O jardineiro obedeceu. Partiu apressado, atravessando os limites do reinado. Já ao cair da noite, encontrou uma pequena casa à beira de um riacho. Bateu à porta, e uma senhora idosa o recebeu. Sem demora, ele contou toda a sua história e o desafio que lhe fora imposto.

Ao despertar, ainda atordoado, chamou a senhora e contou o sonho. Ela ouviu com atenção e respondeu: — Entre na mata e siga até encontrar a caverna do dragão. Guiado pela visão, o jardineiro partiu. Encontrou a caverna e, de fato, lá estava o dragão prateado, adormecido. Com cautela, retirou uma serra de bronze e tentou cortar uma de suas unhas. Mas o dragão despertou imediatamente, abriu um olho gigantesco sobre ele e, com voz retumbante, perguntou: — Você é louco?

— Não, apenas estou desesperado — disse o jardineiro, narrando tudo o que havia acontecido. O dragão, com a boca imensa entreaberta e ainda meio sonolento, ordenou: — Fique nesta caverna até o último dia.

Sem alternativas, o jardineiro aceitou.

Quando o prazo terminou, a cidade celebrava o casamento real. De repente, um brilho intenso rasgou o céu: o jardineiro surgiu montado em um dragão colossal, de quatro patas e vinte garras reluzentes. Diante do rei, perguntou: — Qual destas garras o senhor prefere?

O guerreiro conhecido como Destruidor de Corações ergueu o arco em silêncio traiçoeiro. Mas o dragão o envolveu com a cauda, ergueu-o diante de sua própria cabeça e, com uma única garra, arrancou-lhe todos os dentes. Então bradou: — Nunca mais morderás nenhum coração!

Em seguida, ordenou ao jardineiro que se posicionasse ao lado da princesa para que o casamento se realizasse. Sua voz ecoou, estremecendo os tímpanos do rei: — O jardineiro sabe onde me encontrar. E pode levar a princesa também. Implante a liberdade de escolha em seu reino, ou eu voltarei.


"O conhecimento é um farol na escuridão"

27 de abr. de 2026

Contos e Encantos: O Mistério do Batismo

Contos e Encantos: O Mistério do Batismo:   O mistério do batismo vai muito além da antiga tradição de abandonar o paganismo. Ele abarca um vasto oceano de sentimentos, que se estend...

O Mistério do Batismo


 O mistério do batismo vai muito além da antiga tradição de abandonar o paganismo. Ele abarca um vasto oceano de sentimentos, que se estende do rito tradicional às formas mais diversas de nomear alguém ou algo. Batizar é sempre um gesto carregado de significado: não o faríamos sem que houvesse emoção, respeito ou memória a sustentar esse ato. Nos tempos antigos, a mortalidade infantil era assustadoramente elevada. Quando uma criança adoecia, o batismo era apressado, pois, segundo as tradições de então, acreditava-se que crianças pagãs não poderiam alcançar o céu.

Que absurdo! Como se não bastasse a vida precária de tantas famílias, ainda se criou a ideia de um Deus exclusivo para os batizados. Felizmente, com o tempo, as mentes evoluíram e surgiram novas interpretações sobre Deus e o batismo. Hoje, dar um nome e batizar alguém, ou até algo, tornou-se um gesto comum, profundamente ligado ao emocional de cada pessoa e ao significado daquele momento em sua vida.

Gosto de dar nomes a muitas coisas, especialmente aos meus livros. Certa vez, numa tarde que se estendia pela noite, eu conversava com uma amiga quando ouvimos um som familiar. Ao erguer os olhos para o firmamento, ela comentou: “É o cachorro do céu que vai passando.” Na verdade, tratava-se de uma Suindara, a coruja-das-torres, também conhecida como coruja branca. Mas, por algum motivo, ela a batizou de “cachorro do céu”, talvez pelo canto que soa quase como um aviso.

Um simples exemplo mostra que nem sempre chamamos alguém ou algo pelo nome verdadeiro ou científico. Muitas vezes, criamos um apelido carinhoso ou escolhemos o primeiro nome que surge em nossa mente, e não há nada de errado nisso. Para aquela moça, a Suindara era o “cachorro do céu”, e esse batismo dado à coruja acabou inspirando esta postagem.

Portanto, a importância de criar e batizar está em viver o momento sem imposições ou obrigações. Talvez seja uma válvula de escape para quem precisa respirar novos ares. Quem sabe, para a moça do “cachorro do céu”, o som emitido pela coruja em seu voo majestoso tenha sido o único detalhe diferente em sua rotina diária. É assim mesmo: em muitas ocasiões, mensageiros surgem para atrair nossa atenção e nos ajudar a escapar da dura realidade da repetição cotidiana.


"O conhecimento é um farol na escuridão"

20 de abr. de 2026

Contos e Encantos: As Orelhas do Rei

Contos e Encantos: As Orelhas do Rei:   As orelhas do rei poderiam ser comuns, mas como esperar isso de alguém que é figura pública e poderosa? Em tempos passados, quando surgia...

As Orelhas do Rei

 


As orelhas do rei poderiam ser comuns, mas como esperar isso de alguém que é figura pública e poderosa? Em tempos passados, quando surgia na sacada do palácio, uma multidão entusiasmada gritava seu nome com tanta força que ele mal conseguia ouvir. Ainda assim, seu ego transformava aquele clamor em uma magnífica caixa acústica que alimentava sua vaidade. Porém, o tempo não poupa nem mesmo um monarca. Anos depois vieram as dificuldades, e embora não tenha desistido, sua popularidade passou a se dividir entre apoiadores e críticos.

Certo dia, o rei convocou o povo para explicar os momentos difíceis e decisivos. Com a mesma tranquilidade que demonstrava nos velhos tempos, apareceu na sacada da corte e saudou a multidão. Os mais tradicionais estavam ali, firmes em seu apoio e incentivo. Mas, em outra ala, aquela que sempre existiu e se beneficiava das circunstâncias favoráveis, começaram a ecoar palavras que há muito carregavam em seus pensamentos, palavras de desrespeito e reações negativas que agora se tornavam públicas.

Após alguns minutos, o rei começou a sentir um desconforto. Levou as mãos às orelhas e, em seguida, retirou-se da sacada. Antes de sair, porém, lançou um olhar profundo para algumas pessoas que outrora o haviam abraçado nos tempos de glória. Naquele instante, compreendeu com clareza quem eram os verdadeiros amigos. Pouco depois, uma nota oficial informou que o monarca não estava bem e precisara se retirar. A notícia, no entanto, foi recebida com desconfiança: poucos acreditaram na explicação e muitos questionaram sua veracidade.

O rei chamou um de seus conselheiros e, entre tristeza, lágrimas e revolta, abriu o coração. Desabafou tudo o que sentia e concluiu afirmando que ainda era rei, que não estava acabado. “E se fosse com você?”, perguntou ao conselheiro.

Com serenidade, o conselheiro respondeu: “Majestade, lembre-se de que é uma figura pública e precisa aprender a lidar com pessoas de emoções frágeis. Mesmo sendo poderoso, não esqueça que continua sendo humano, prova disso é o desejo de ainda ser venerado como nos primeiros dias de seu reinado. Tanto o rei quanto os súditos têm seus tempos de glória e suas fases de decadência. Isso não é motivo de vergonha, mas parte inevitável da vida.”

Meu conselho sincero é que receba as críticas com respeito, mesmo aquelas ditas sem clareza, fruto da falta de conhecimento ou de controle. Cultive a virtude da humildade e reconheça que o tempo passa para todos. Sua história é moldada pelo tempo e pelo modo como atua nele. Busque sabedoria para compreender aquilo que parece injusto, reinvente-se e conquiste vitórias silenciosas. O povo voltará a aplaudi-lo como antes. Não permita que o passado cobre dívidas no presente; acredite, trabalhe, e um novo ciclo de glória surgirá.

Enfim, tanto os famosos quanto os anônimos enfrentam mudanças constantes ao longo da vida. É necessário encontrar forças para lutar, defender e conquistar novas vitórias, compreendendo que muitas vezes as pessoas esperam uma performance sempre crescente, sobretudo daqueles que se tornam figuras públicas. A serenidade é essencial, especialmente para quem se transforma em ídolo. E, por vezes, o silêncio possui mais peso e voz do que qualquer grito.


"O conhecimento é um farol na escuridão"


Contos e Encantos: Noites de Junho

Contos e Encantos: Noites de Junho :   Noites de junho. O cheiro das fogueiras entra suavemente pela janela do quarto e me envolve com lemb...