17 de fev. de 2026

Contos e Encantos: Frio e Solidão

Contos e Encantos: Frio e Solidão:   Frio e solidão pareciam disputar espaço naquela tarde chuvosa, açoitada por rajadas de vento cortante. A montanha, verde e imponente, ergu...

Frio e Solidão

 


Frio e solidão pareciam disputar espaço naquela tarde chuvosa, açoitada por rajadas de vento cortante. A montanha, verde e imponente, erguia-se como uma turmalina colossal guardada pelo próprio cosmos. Entre árvores cerradas e rochedos ancestrais, uma caverna escondia um lobo solitário, esquecido pelo tempo. A cada relâmpago, o clarão esculpia sombras que se agitavam como espectros, mais próximas de fantasmas do que simples reflexos da luz.

Dentro da caverna, o velho lobo carregava o peso da ausência da matilha. Doía-lhe sobretudo a falta das brincadeiras com os lobinhos, como apagar da memória o cheiro quente do sangue dos parentes, ou esquecer aquela mordida carinhosa nas orelhas que lhe arrancava uivos silenciosos? Agora, restavam-lhe apenas o frio e a solidão. Mas que escolha tinha, se seus ancestrais também haviam suportado as mesmas feridas abertas pelo tempo?

A chuva torrencial desabava sobre a entrada da caverna, enquanto o vento, em seus açoites impiedosos, lançava gotas geladas contra os olhos do velho lobo. Ele apenas os fechava, permitindo que a água se confundisse com as lágrimas de saudade. Então, o vento rugiu mais forte, transformando-se em um lamento profundo, como se fosse a voz da própria montanha. Esse som bastou para despertar nele a memória das primeiras perdas da matilha clamores de socorro que jamais pôde atender, ainda que tivesse oferecido a própria vida em troca.

A chuva intensificava-se, e outros animais buscavam refúgio na caverna. Aproximavam-se sem temor, como se compreendessem que o frio e a solidão já haviam drenado as forças do velho lobo. Se em tempos passados representara perigo, agora não passava de mais um vencido pelo tempo. Com esforço, ergueu-se e farejou entre as pedras. O que encontrou, porém, foi apenas sangue seco vestígio de um lobinho que, ao brincar com uma mariposa, acabara ferido. Para ele, aquele sinal era mais que um resquício: era uma lembrança viva, um fragmento de um instante marcante que o tempo não conseguiu apagar.

De súbito, um ancião adentrou a caverna. Não buscava abrigo, pois amava a chuva, mas seu instinto o guiara até ali, atraído pela tristeza que emanava do velho lobo. Aproximou-se e, com gesto sereno, lhe acariciando o dorso como quem consola um cão companheiro. Os demais animais não se incomodaram com a presença do homem, mas o lobo, surpreendendo-o, ergueu a voz em forma de pergunta: Estará pronto quando chegar a hora de encarar o passado, ou sofrerá tanto quanto eu sofro agora?

— Qual é o seu maior sofrimento: o frio, a solidão ou as lembranças?

A saudade dos meus queridos… daqueles que alimentei e dos que me alimentaram. Onde estarão agora? Veja, meu velho, quando a consciência desperta para o peso do tempo, não é o abandono que mais fere. A dor maior é a lembrança, tão forte que até o espírito sente o frio do tempo irreversível. O perfume daquele abraço inocente, que não se importava com como você estava, queria apenas lhe envolver… esse é o fardo que jamais se apaga.

A chuva não cessava, e o frio dentro da caverna parecia ter se multiplicado. O lobo, perdido em sua angústia de ausência, e o ancião, tomado pelo temor do amanhã inevitável, compartilhavam o peso da profecia. O velho sabia que o lobo estava certo, mas também sabia que não estaria pronto e essa certeza o dilacerava. Ainda assim, lançou ao animal um olhar de gratidão, antes de sair para abraçar os seus, enquanto o tempo, soberano e implacável, ainda lhe concedia essa dádiva.


"O conhecimento é um farol na escuridão"





16 de fev. de 2026

Contos e Encantos: O Coraçao da Casa

Contos e Encantos: O Coraçao da Casa: O coração de uma casa é tão singular quanto as digitais de quem nela habita. Nenhum visitante é capaz de medir os segredos que ali repousam,...

O Coraçao da Casa


O coração de uma casa é tão singular quanto as digitais de quem nela habita. Nenhum visitante é capaz de medir os segredos que ali repousam, e ainda assim alguns ousam administra-lo com uma competência ilusória típica dos tolos. Como infelizmente são muitos, precisamos de sabedoria e equilíbrio para suportar essa gestão invasora e pretensiosa.

Não é por acaso a tese das muitas moradas na casa do Pai: somos nós mesmos essas moradas. O difícil é compreender ou aceitar pessoas que acreditam conhecer a intimidade da casa alheia. As sementes das ervas daninhas também são fortes, mesmo invisíveis, e nascem entre aquilo que cultivamos sem nos dar escolha, impondo sua presença contra nossa vontade.

O coração da casa pode assumir formas distintas, pois não é raro ouvirmos que “paredes têm ouvidos” e que até os matos guardam segredos. Talvez o mais sábio seja silenciar e permitir que apenas o vento carregue nosso silêncio. Assim, ninguém terá acesso antecipado aos nossos projetos pessoais; quando for a hora certa, o próprio universo se encarregará de revela-los. Não se trata de medo ou superstição, mas de pura lógica.

Como diz Provérbios 16:3: “Consagre ao Senhor tudo o que você faz, e os seus planos serão bem-sucedidos.” A ordem é clara: entregar o projeto a Ele antes que os outros saibam. Há um motivo para um alerta tão firme. O coração da casa que somos nós precisa pulsar com força, garantindo vida e autenticidade. Que possamos, ao menos, viver nosso papel sem sofrer com o peso de um gerenciamento externo e invasivo.

O som do coração só pode ser verdadeiramente percebido por quem o carrega. É sábio escuta-lo com atenção. Há uma certeza inquestionável: é urgente aprender a administrar nossas próprias batidas e reconhecer o momento em que algo não vai bem. Só então, ao cuidar dele, seremos capazes de ouvir e conduzir o coração da nossa própria casa.


"O conhecimento é um farol na escuridão"



14 de fev. de 2026

Contos e Encantos: No Carnaval da Vida

Contos e Encantos: No Carnaval da Vida:   No carnaval da vida, todos somos foliões. Às vezes brilhamos nos destaques das alegorias, outras vezes sambamos discretos no chão, como pa...

No Carnaval da Vida


 No carnaval da vida, todos somos foliões. Às vezes brilhamos nos destaques das alegorias, outras vezes sambamos discretos no chão, como passistas anônimos. Seja no alto dos carros alegóricos ou nos bastidores que os sustentam, quase sempre vestimos a fantasia de uma alegria contagiante, mesmo quando a alma se afoga em rios de lágrimas.

Enquanto os carnavais oficiais duram apenas três dias, o nosso carnaval existencial é longo, intenso e desafiador. E nele, a comissão julgadora jamais se engana, nem repousa nos camarins. Se a chuva desce sobre o asfalto da avenida e apaga o brilho do sapato do passista, a lágrima que escorre em nosso rosto não nos detém. Seguimos firmes no desfile da existência, sustentados pela esperança de resultados mais grandiosos do que qualquer nota de apuração na quarta-feira de cinzas.

 Na apoteose do samba, a cada ano as escolas desfilam enredos inéditos, contagiando os foliões nas arquibancadas. Mesmo quando homenageiam personagens já conhecidos, cada narrativa ganha novas cores, detalhes e brilhos. A bateria, com sua energia única, sacode o público e renova o espetáculo. Nós também, com um repertório variado de problemas e desafios, precisamos inovar e nos reinventar. É preciso encarar o nosso desfile com sangue, suor e lágrimas para, ao final, encontrar motivos para sorrir.

Mestre-sala e porta-bandeira dançam diante da comissão julgadora vivendo seus instantes únicos, e sonhando com a nota máxima. Na escola da vida, tantas vezes somos mais espetáculo do que originalidade e não por escolha, mas por urgência. O estandarte é pesado, mas ainda assim preferimos cambalear com ele a deixá-lo cair.

Que sigamos desfilando no grande carnaval da vida, com energia e firmeza nos pés para sambar sobre os problemas. Que as alegrias sejam abundantes e que a comissão julgadora do universo nos presenteie com notas generosas. Que a nossa bateria nunca perca o compasso, e que a própria vida se transforme em um majestoso carro alegórico, onde nós sejamos sempre o destaque principal.


"O conhecimento é um farol na escuridão"


12 de fev. de 2026

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